Os jogos em que Duarte Gomes levou boladas na cara e carrinhos que o viraram ao contrário
Vida de árbitro não é nada fácil, como conta Duarte Gomes, nem mesmo quando tudo parece tranquilo em campo... De repente, uma bolada ou um tackle mal medido podem provocar mazelas. Esta é mais uma história (na verdade, são três mini histórias) da rubrica "Atrás da Cortina", com episódios sobre os bastidores da arbitragem
23.03.2020 às 16h14
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A rubrica de hoje não recordará uma, mas três histórias. Três histórias ao estilo de peripécias (quase comédias, vá) e que aconteceram, em momentos distintos, ao longo das várias épocas em que arbitrei jogos de futebol profissional em Portugal. Vamos a isso então:
1. Estádio António Coimbra da Mota, algures num passado longínquo
- Não me vão levar a mal, mas a memória não consegue precisar qual foi o adversário do Estoril Praia nessa tarde. Lembro-me que foi há muito tempo, que as bancadas estavam compostas e que o dia estava lindo, com pouco vento e bastante sol. Aposto que foi em agosto, setembro.
A dado momento, um defesa tentou afastar o perigo da sua zona defensiva, tentando pontapear a bola com força para longe da sua área. Para meu azar, encontrou a minha cara pelo caminho.
Estava demasiado próximo, logo muito mal colocado (na linha direta do remate). Moral da história: a bola acertou-me em cheio, de frente e com estrondo.
Senti logo o sangue a escorrer e percebi logo porquê: tinha os dois lábios rasgados. Isso obrigou-me a parar o jogo. Infelizmente. Mas o mais estranho nem foi isso. O estranho foi a sensação inesquecível de ter toda a cara a arder e a latejar. A latejar bastante. Aquilo doía que se fartava. Os jogadores estão habituados a este tipo de pancada, de danos colaterais, mas os árbitros não.
Depois de assistido e já com menos estrelas em órbita (juro que se vê estrelas), o jogo lá recomeçou. No fim e além dos lábios em mau estado, tinha também o nariz ensanguentado e um olho azulado. Bem feito.
2. Jogo em Arouca, algures entre 2011 e 2013
Geograficamente mais acima e, de novo, com recordação zero do adversário daquele tarde. Quando são demasiadas histórias, a memória parece filtrar o essencial do acessório. O que não filtrou, lá está, foi outra bolada e claro, de novo por estar francamente mal colocado.
Desta vez, não foi bem em cheio: foi mais acima e em zona lateral do rosto (entre a testa e olho direito, por aí). Não antecipei um passe à distância (novo erro de estagiário) e fiquei parado, algures, no meio.
Levei a pancada mas o jogo seguiu, porque a equipa continuou uma jogada de perigo. É preciso relembrar que, naquela altura, nenhum toque de bola no árbitro implicava interrupção da partida. Pelo contrário. A paragem só acontecia se o árbitro ficasse "KO" e os seus colegas não conseguissem acompanhar as restantes incidências.
NurPhoto
Lembro-me que, depois de ser atingido, deixei de ver daquele olho. A 100%. Não via mesmo nada. Estava a lacrimejar e a arder. O outro, diga-se de passagem, também não ajudou muito. Provavelmente estava a ser solidário.
Continuei a acompanhar a jogada, mas pedi à minha equipa que redobrasse esforços no sentido de acompanhá-la comigo. Nos segundos que se seguiram, senti que não estava lá, ou melhor, estar estava, mas em modo "corre e ouve o que eles te dizem".
Assim fiz e as coisas acabaram por correr bem, porque tive a sorte de ter ali uma equipa a sério.
Na primeira interrupção, fui obrigado a pedir água a um dos bancos técnicos. Levei a cara, respirei fundo e tentei fazer-me de forte. A imagem é tudo e um árbitro nunca pode mostrar fragilidade, ainda que momentânea.
3. Estádio 25 de Abril, jogo da 2ª Liga
Desta vez, eu e a bola não tivemos momentos de proximidade excessiva.
Fiz pior. Aproximei-me demasiado de uma jogada disputada com maior intensidade e por vários atletas. Cometi aí novo erro. É que, nesses casos, quanto mais perto, maior a probabilidade de estorvar e menor o ângulo de visão. Básico, Duarte. Tão básico!
A parvoíce saiu-me cara: choquei de frente com um defesa penafidelense e, como se não bastasse bater naquela parede de betão, fui depois derrubado por um tackle deslizante de outro. Derrubado, não. Virado ao contrário!
Estava ainda atordoado da primeira pancada quando levantei voo da segunda. Essa sim, deixou mazelas.
Aqueles "meninos" dão o máximo em cada lance, têm muita força e, como se não bastasse, calçam botas com pitões de alumínio (mini pregos, vá).
Tentei evitar que aquele momento infeliz afetasse a minha forma física e estilo de corrida no resto do jogo, mas a verdade é que foi muito difícil. A entrada deixou-me bastante dorido.
Passei as semanas seguintes a colocar gelo e Voltaren no tornozelo. Muito gelo e muito Voltaren.
Faz parte, sobretudo quando alguém experiente se põe a jeito da forma como eu, estupidamente, me pus.
Um dia escrevo um livro e conto outras histórias deste género. São tantas...
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