O Itália-Uruguai foi intenso e rasgadinho, mas o pior foi o dia seguinte (porque o corpo aguenta muita tareia, mas não aguenta tudo)
O ex-árbitro Duarte Gomes recorda hoje uma história na qual vale a pena pensar, em tempos de quarentena e de trabalho intenso: o corpo e a mente aguentam muita coisa... mas não aguentam tudo
26.03.2020 às 15h56
Claudio Villa
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O "Atrás da Cortina" de hoje viaja (em segurança, prometo) até à capital italiana. A história que partilho ajuda-nos a relembrar que todos temos um limite. Uns mais cedo, outros mais tarde. Nessa matéria, corpo e mente têm sempre razão: basta que estejamos atentos aos sinais
Roma, Novembro de 2011
Fui nomeado para arbitrar um particular entre Itália e Uruguai (Seleções A). O jogo foi no majestoso Estádio Olímpico de Roma, um palco mágico, com história e tradição.
A acompanhar-me estiveram dois bons amigos, árbitros assistentes internacionais. Gente boa, muito boa.
Apesar daquele ser um encontro teoricamente "a feijões", preparamos o nosso trabalho com o mesmo rigor, com o profissionalismo habitual.
A imagem da arbitragem portuguesa não depende apenas da sua performance desportiva. Depende, muito mais, da imagem que os seus principais atores transmitem para o exterior.
Aí tudo conta: a forma como se apresentam e como se relacionam com terceiros, a forma como agem entre si e como mostram a sua inteligência, a forma como evidenciam o seu caráter, personalidade e educação, mantendo sempre o equilíbrio entre quem são e ao que vão.
Aos olhos de terceiros, excesso de humildade é vaidade. Laivos de superioridade é prepotência. Há que ficar ali pelo meio, onde mora a sensatez.
A viagem foi curta e tranquila, sem sobressaltos.
O Uruguai venceu a Itália, por 1-0
Claudio Villa
À chegada, tínhamos à nossa espera um árbitro italiano: Matteo Trefoloni. Além de anfitrião, foi também o nosso 4º árbitro. O Matteo, natural de Siena, tinha 40 anos e já arbitrava jogos na Série A.
Sentíamos aquela leveza de saber que íamos fazer o que mais gostávamos, sem a sensação pesada da responsabilidade competitiva. Sabíamos que o jogo seria importante, mas sem nada de muito importante em disputa.
De futebol, em si, pouco importa falar. O encontro foi intenso e rasgadinho, o que não nos surpreendeu, face à dimensão das equipas e ao quilate individual dos seus craques (Buffon e Balotelli, Cavani e Godin, Chiellini, Muslera, De Rossi, Maxi Pereira e tantos outros).
No final, fomos jantar.
No Itália-Uruguai de 15 de novembro de 2011, Duarte Gomes expulsou Álvaro Pereira
Claudio Villa
Estávamos cansados mas com a sensação de dever cumprido. Tínhamos voo de regresso à hora de almoço do dia seguinte, ainda nos restavam algumas horas para descansar.
Na manhã seguinte, dia de voltarmos para Lisboa/Porto e quando nos preparávamos para tomar o pequeno-almoço, um dos meus colegas, árbitro assistente, desmaiou.
Desmaiou de repente, de um segundo para outro. Caiu, desamparado sobre nós, entre nós, no elevador minúsculo onde estávamos.
Ficou inanimado o tempo suficiente para ficarmos assustados. O tempo suficiente para que o elevador chegasse ao R/C, obrigando-nos a pedir ajuda.
Já passei por situações semelhantes - quebras de tensão, hipoglicemia, paragens de digestão, etc - mas nunca tinha passado por uma situação que, momentaneamente, me levasse a pensar o pior.
Não tínhamos explicação racional para aquilo: na véspera, estávamos todos bem dispostos, na brincadeira e divertidos. Ninguém tinha abusado no jantar, nem do que bebeu, nem do que comeu. Nada. Zero.
Aos poucos, já cá para fora e com ajuda prestável do pessoal do hotel, começou a recuperar a consciência. Devagar. Devagarinho .
Estava pálido, muito pálido e com olhar algo "inebriado". Estava lá, mas era como se não estivesse. Tudo muito vago e distante.
Chamámos uma ambulância. Entretanto, gradualmente, foi recuperando a consciência até ficar aparentemente bem.
Daí até chegarmos a Portugal não teve outra "recaída" ou sinal de perda de consciência, mas a verdade é que fizemos a viagem atentos, com o alerta em sinal mais.
Já em casa, fez vários exames e análises que não revelaram nada de grave.
As causas apontadas para aquele episódio foram as habituais. As que, mais cedo ou mais tarde, acabam por afetar todos aqueles que não conseguem travar o seu ritmo de trabalho: fadiga, falta de descanso, stresse, cansaço acumulado, enfim... a série habitual de sinónimos, que apenas nos recorda que somos pequeninos, finitos e muitos mais vulneráveis do que julgamos.
Corpo e cabecinha são rijos e aguentam muita tareia, mas não aguentam tudo. É importante que, agora que temos mais tempo disponível, pensemos nisso.
E é mais importante ainda que gente com responsabilidade política reflita sobre isto, quando pensa em todos aqueles que estão agora a viver uma vida de doidos... para salvar a nossa e a deles.
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