Um 4.0 na escala de Pizzi
Driblou, criou e inventou na primeira parte para, na segunda, receber e finalizar. Pizzi marcou dois golos, fez uma assistência e foi do melhor que se viu no Benfica que ganhou (4-0) ao Famalicão e se mostrou cada vez assente nas dinâmicas geradas entre o capitão e Chiquinho, nas bolas filtradas por Gabriel e no jogo criado por Taarabt
14.12.2019 às 20h26
PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty
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Não lhe apanhei o nome, o cabelo era grisalho, a cara rugosa, o senhor acumulava idade e estava à porta do Estádio da Luz, eu em casa, ele de câmara e microfone apontados, a ser um de muitos alvos para auscultação pré-jogo, banalmente cheias, por hábito, de opiniões parciais e superficiais e que mal chegam a roçar a superfície de uma análise com pés e cabeça.
O senhor sapiente se desvendou, durante mais de cinco minutos, falando sem quebras à “Sport TV” e prolongando a sua sessão no interrogatório em série que costumam ser estas coisas, partindo do particular Benfica-Famalicão para o futebol no geral, ele são e razoável, a dizer que um jogo, seja onde for, depende da “vontade de uma equipa que quer ganhar, sem ter medo de perder”.
É mera ocupação de espaço escrever que a frase se aplica ao Benfica, é de elogiar que exista na mesma linha que o Famalicão, que em dezembro, com 14 jornadas várias feitas a liderar o campeonato, joga na Luz iluminado pela mesma atitude de querer ganhar jogando como sempre - construindo do guarda-redes, na relva, de forma apoiada e curta, com jogadores a atraírem contrários, a fixarem-nos e a soltarem a bola - em vez de tentar não perder e, se der, vencer.
Em 45 minutos houve, apenas, dois chutões para a frente, espasmos sem nexo durante uma parte em que o querer sair de trás com a bola, do Famalicão, funciona até metade do tempo, de tabela em tabela, respeitando apoios frontais, até Fábio Martins ou Rúben Lameiras receberem, terem o seu lateral a correr-lhes pelas costas e criarem espaço para decidirem.
O primeiro remate na baliza é de Pedro Gonçalves, reto e às mãos de Vlachodimos, aos 27 minutos, quando Carlos Vinícius ainda nem um toque dera na bola, desligado da equipa porque o Famalicão compactava as linhas, cerrava espaços ao centro e obrigava Taarabt a distribuir passes por fora.
Mas foi aí, mais ou menos, que, sem bola, Chiquinho atinou na marcação a Gustavo Assunção, tapando o primeiro médio adversário e deixando o Benfica assentar as referências de pressão na saída de bola do Famalicão. Aos poucos, forçou os destemidos visitantes a errarem atrás da linha do meio campo e acelerou o ritmo nos momentos pós-bolas recuperadas.
Chiquinho intensificou-se, desatou a atacar o espaço entre central e lateral esquerdo com diagonais, ora recebendo de Tomás Tavares ou Pizzi, ora desviando atenções para arranjar tempo ao capitão. O mais inspirado, moralizado e em forma criador de jogo da equipa, com as suas ações de poucos toques na bola, receções orientadas, piques curtos e um-dois constantes, fizeram crescer o jogo atacante do Benfica.
Pizzi já tentara canalizar o seu Van Basten interior, numa bola longa rasgada por Taarabt, já fizera um slalom da esquerda para dentro e já batera contra Defendi, na área. Já tinha três remates com um quê de espetacularidade quando uma diagonal de Chiquinho foi respeitada e ele cruzou a bola, rasteira e tensa, para Vinícius encostar o 1-0 perto do segundo poste.
PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty
O golo tão perto do intervalo não levou o Famalicão a corrigir o desamparo no seu lado esquerdo. Fábio Martins continuou a chegar tarde, ou a nem chegar, ao apoio e compensação defensivas, Centelles manteve-se sozinho perante Pizzi, às vezes até sem um central ou médio perto, na cobertura, devido às diagonais de Chiquinho.
Não é que o íman gerador de desequilíbrios estivesse, constantemente, colado a esse lado. Quando a bola chegava à direita, já o Famalicão se partira e desorganizara, cada vez mais partido nos momentos em que tentava pressionar o Benfica a todo o campo. Gabriel era sempre a opção perto da bola que a filtrava para longe da pressão, deixando Taarabt ser o criador-mor nos últimos 40 metros - e, aos 30 anos, pós-travessia no deserto, ser um 8 que rouba, desarma e interceta tanto quanto passa, finta e remata.
E, de principal desequilibrador na primeira, Pizzi tornou-se no finalizador da segunda, recetor do último passe para deixar alguém apto para finalizar. Ele dominado duas bolas com o pé direito e rematou-as com o esquerdo, na área, batendo o 2-0 e o 3-0 à força, mais eficaz do que genial, decisivo no jogo em que se insuflou de confiança e regressou às tentativas insistentes de tabelas bonitas, à entrada da área, quando o resultado estava feito.
O Famalicão não mais teve fluidez para sair de trás com futebol apoiado, perdeu muitas bolas e só em transições rápidas, nos últimos 10 minutos, levou jogadas até aos remates de Fábio Martins, já Racic recuara para trinco sem resolver o problema da falta de referências livres para construir jogo causado pelo Benfica, que ainda faria o 4-0 por Caio Lucas, a fechar um contra-ataque em que Pizzi o assistiu.
A fórmula que Bruno Lage experimentou para afastar as dúvidas do Benfica, aproximar os bons pés na mesma equipa e criar dinâmicas/movimentos para os fazer render, juntos, deu-lhe mais uma prova de que poderá mesmo ser a solução para o titubeante arranque de época que a equipa mostrou.
Se Pizzi servir de escala e se fixar a mira nos números, estará mesmo a resultar: vai com 18 golos esta época, 11 no campeonato.
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