Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Velocidade Furiosa: Rafa & Vinicius

O Benfica bateu o Paços de Ferreira (2-0) num jogo em que a intensidade e a qualidade de Rafa foram essenciais para derrotar um adversário que não perdia há quatro jornadas. Se lhe derem espaço, o pequeno grande jogador aproveitará a profundidade para atingir o objetivo fundamental deste desporto: marcar golos. E quando não marca, dá a marcar

Pedro Candeias

Quality Sport Images

Partilhar

Um dia, o VAR terá de ser estudado por clínicos, pois é possível que a taxa de picos de ansiedade esteja a disparar pelo país a partir do momento em que algo acontece até ao momento seguinte, quando o que aconteceu é confirmado ou anulado.

Podem passar-se largos minutos entre uma coisa e outra; no caso do não-golo de Pizzi, foram precisos quatro minutos (dos 17’ aos 21’) para legitimar a bandeirola levantada pelo auxiliar de Manuel Oliveira: Vinicius estava quatro centímetros fora-de-jogo, conforme as linhas digitais traçadas nos mostraram, porque, além do stress, o VAR trouxe também novos ângulos de análise e de debate sobre a importância de estar três dedos do pé adiantado.

Para quem pensa que isto é irrelevante, devo lembrar que os saltadores Pablo Pichardo, Patrícia Mamona e Susana Costa não chegaram às medalhas nos Mundiais e nos Europeus de Pista Coberta de Atletismo de 2019 por quatro centímetros. A diferença entre um feito inesquecível e um esquecível é curta no desporto, embora no Paços de Ferreira 0-2 Benfica a métrica pouco tenha importado.

Porque antes desse lance, o Benfica obrigara Ricardo Ribeiro a defender bem um livre batido por Grimaldo (minuto 10’) e enviara uma bola ao ferro num cabeceamento de Vinicius (17’). E porque, após a pausa dramática para efeitos de VAR, Ferro forçou outra defesa a Ricardo Ribeiro e Pizzi chegou ligeiramente atrasado a um cruzamento-remate de Vinicius (28’) – até que aconteceu o golo por Rafa (39’): lançado em profundidade por Rúben Dias, o pequeno grande jogador fintou Baixinho e rematou a meia altura para a baliza do Paços de Ferreira. A seguir, Pizzi ainda chutou de pé esquerdo para nova parada de Ribeiro, já dentro dos descontos (45+1’), após uma tabelinha criativa com Rafa, claro.

Serve este pequeno apanhado de lances perigosos para demonstrar que o Benfica mereceu ir para intervalo em vantagem, até porque do lado do Paços de Ferreira registaram-se o remate de Hélder Ferreira, que Vlachodimos defendeu (minuto 24’), e os chutões de Tanque, que descobriu um desafio, digamos, diferente: bater a bola de forma a levá-la a sair do estádio; não conseguiu à primeira, mas certamente terá tido sucesso à segunda tentativa.

Ora, como é que isto sucedia? Assim: o Paços de Ferreira tinha a posse do seu lado, mas o Benfica resgatava-a nos lugares que importam, acelerando imediatamente o jogo através das arrancadas fulgurantes de Rafa, Cervi e Vinicius, explorando os espaços e a profundidade que foi encontrando. O método, industriosamente elaborado por Gabriel e por Weigl, quase sempre ao primeiro toque e em passes verticais, permitia aos encarnados uma chegada rápida à baliza contrária, provocando o caos na defesa dos castores.

A segunda-parte seria também assim, porque quem tem Rafa, tem um granada pronta a deflagrar - com ele e sem Chiquinho, o Benfica é uma equipa muito mais assertiva. Aos 51’, o avançado disparou, recebeu o passe de Ferro e passou a bola para o 11.º golo em 16 jogos na Liga de Vinicius, a quem lhe seria anulado o 12.º por fora-de-jogo, com (quase) assistência de Weigl.

Feito o 2-0, a equipa de Lage baixou o ritmo e a intensidade, foi aqui e ali supreendida por um adversário que subiu no terreno, aproveitando o afrouxamento alheio. O Benfica perdeu bolas, alguns corpos começaram a cair perto da área e dentro da mesma, sinal de que as coisas não corriam bem, levando Vlachodimos a intervir para assegurar que o resultado estava fechado. Felizmente, para os de Lisboa, Tanque continuou a aperfeiçoar a modalidade recém-inventada pelo próprio. Infelizmente, para os de Lisboa, Seferovic poderá ter-lhe apanhado o jeito, a julgar pelo falhanço nos instantes finais do encontro.

No final, fica a história de um triunfo relativamente tranquilo, que deixa o intranquilo FC Porto a dez pontos, à condição (joga na terça-feira, com o Gil Vicente), e a impressão de que os encarnados têm plantel suficiente para o bicampeonato.