Mais bola e mais pressão: o que esperar do Portugal-Marrocos
Depois de explicar o Portugal-Espanha a fundo, o analista de futebol Tiago Teixeira explica-nos o que devemos esperar do Portugal-Marrocos, esta quarta-feira (13h, SIC)
19.06.2018 às 21h30
Fernando Santos, selecionador de Portugal, e Hervé Renard, selecionador (francês) de Marrocos
PAUL ELLIS/GETTY
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Muitos golos, muita emoção e muito Ronaldo - é assim que se resume o primeiro jogo da seleção portuguesa no Mundial da Rússia. O resultado conseguido foi muito melhor do que a exibição realizada, mas o caminho para os oitavos de final está agora mais fácil.
Antes de irmos ao Portugal-Marrocos (quarta-feira, 13h, SIC), vamos primeiro rever o Portugal-Espanha (3-3), que nos dá pistas importantes para o que aí vem contra os marroquinos.
Em 4-4-2 clássico, a estratégia da seleção portuguesa contra Espanha passou por defender num bloco médio/baixo e após a recuperação da bola sair rápido em transição. Gonçalo Guedes e Cristiano Ronaldo, lado a lado, formaram a primeira linha defensiva, sempre preparados para saírem em velocidade após a recuperação da posse de bola. Mais atrás, numa linha de quatro, William Carvalho e João Moutinho no duplo pivô e Bruno Fernandes e Bernardo Silva formaram a linha média.
A organização defensiva de Portugal contra a Espanha
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Apenas no momento da transição ofensiva é que a seleção portuguesa se aproximou (pouquíssimas vezes) da baliza de De Gea com a bola controlada.
Destaque para o lance, aos 21 minutos da primeira parte, no qual após um canto favorável à seleção espanhola Bruno Fernandes conseguiu conduzir a transição e fazer a bola chegar a Ronaldo, que, de primeira, a entregou a Guedes, já dentro da grande área espanhola, mas o avançado não conseguiu rematar.
Em ataque posicional, a seleção portuguesa não criou rigorosamente nada durante o jogo todo. Além do excelente posicionamento defensivo da Espanha (ver na imagem seguinte), a seleção portuguesa demonstrou sempre muitas dificuldades e pouca paciência na primeira fase de construção quando pressionados (Pepe e Fonte com muitas dificuldades neste momento) e pouca capacidade coletiva (médios muitas vezes posicionados lado a lado, o que favorece mais a circulação em largura do que em profundidade) para fazer a bola chegar ao espaço entre a linha defensiva e a linha média da seleção espanhola.
Muita circulação por fora do bloco defensivo espanhol e pouquíssima capacidade para criar situações de golo.
A organização defensiva da Espanha
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A segunda parte do jogo foi de completo domínio por parte da seleção espanhola. Tal como sucedeu na primeira parte, a proximidade em campo de jogadores como Alba, Isco, Silva e Iniesta permitiu-lhes, mesmo quando pressionados, manter a bola controlada e progredir de forma apoiada.
Conseguiram fazer a bola chegar ao espaço entre a linha defensiva e a linha média da seleção portuguesa (as marcações HxH por parte dos médios portugueses contribuíram para o aumento desse espaço), ainda que depois não o tenham aproveitado da melhor maneira.
Depois de passarem para a frente no marcador, geriram o jogo de forma perfeita através de longas posses de bola e muita proximidade entre jogadores, preferindo apenas controlar o jogo em vez de atacar a baliza de Rui Patrício.
A seleção portuguesa praticamente não chegou perto da baliza de De Gea durante toda a segunda parte, mas quem tem Ronaldo arrisca-se a marcar mesmo sem estar a fazer nada para isso. E, aos 87 minutos, através de um livre direto executado de forma perfeita, a seleção portuguesa chegou ao empate com que terminou o jogo.
E Marrocos?
FADEL SENNA/GETTY
A seleção comandada por Hervé Renard gosta de ligar os seus ataques de forma apoiada desde zonas mais recuadas, com os centrais Benatia e Saiss a demonstrarem qualidade na construção (caso opte por um sistema de três centrais, Manuel da Costa fará parte do trio e também será uma mais-valia na construção), e os médios a posicionarem-se de forma a receber a bola no espaço entre as linhas defensivas adversárias.
No primeiro jogo contra o Irão foi isso que aconteceu. Uma estrutura posicional que favorecia a construção apoiada, embora a pouca paciência na circulação os tenha prejudicado muito. Demasiados passes longos e demasiada pressa em fazer a bola chegar à frente tornou o processo ofensivo da seleção marroquina pouco elaborado e com pouca qualidade na ligação entre a fase de construção e a fase de criação.
A organização ofensiva de Marrocos
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Tendo em conta a fase de construção marroquina, a seleção portuguesa terá de ser competente no momento da pressão caso opte por condicionar a saída de bola, uma vez que se pressionar em inferioridade numérica, com muita distância entre a primeira linha de pressão (Ronaldo e Guedes/André Silva) e os médios, os centrais e os médios marroquinos irão ligar a fase de construção e entrar no meio-campo ofensivo de forma apoiada, com o objetivo de fazer a bola chegar ao espaço entre os defesas e os médios portugueses.
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Embora a seleção marroquina goste de ter a bola, é de prever que o domínio de jogo pertença à seleção portuguesa, que irá passar mais tempo em ataque posicional do que sucedeu no jogo contra a seleção espanhola. Neste momento terá de haver muito mais qualidade do que a demonstrada no primeiro jogo, com mais e melhor ocupação do espaço:
1- Criação de superioridades numéricas nos corredores laterais de modo a ganhar a linha de fundo em zonas próximas da grande área marroquina;
2- Opções de passe no espaço entre a linha defensiva e a linha média marroquina. É essencial que jogadores como Bernardo Silva e João Mário ou Bruno Fernandes tenham posicionamentos interiores tanto para criar pelo corredor central como para abrir espaço nos corredores laterais.
Em comparação com o jogo contra a seleção espanhola, o jogo contra Marrocos irá trazer algumas semelhanças e diferenças em alguns momentos do jogo.
Assim como a seleção espanhola, também a seleção marroquina gosta de condicionar a primeira fase de construção do adversário, pelo que é previsível que a seleção portuguesa volte a demonstrar dificuldades neste momento do jogo, se a dupla de centrais for a mesma, e se voltarem a demonstrar pouca paciência na circulação de bola em zonas recuadas.
Ao contrário do que aconteceu no primeiro jogo, onde praticamente não existiram momentos de transição ofensiva da seleção espanhola, o jogo contra Marrocos irá pôr à prova a reação à perda da bola da seleção portuguesa, que terá de ser agressiva de modo a evitar os ataques rápidos conduzidos principalmente por Zyiech.
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