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17.02.2020
HUGO DELGADO/LUSA
Domingo à noite, sentada no sofá, via o Vitória de Guimarães-FC Porto na televisão, quando fiquei absolutamente siderada: Moussa Marega, logo ele, com o historial que tem, enfim, naqueles pés meio toscos, a conseguir marcar um golo com aquela classe, picado com souplesse por cima do guarda-redes Douglas? Chocante.
Pensava eu, na minha ingenuidade, que aquele seria o momento mais surpreendente de uma bela noite em Guimarães, pelo menos no que diz respeito à competitividade do jogo em questão, que poderia deixar o FC Porto a um ponto do líder Benfica, animando o nosso pobre futebol português. Só que, depois, aconteceu o que aconteceu, que pode (re)ver AQUI na totalidade.
E o que aconteceu, para que fique já bem claro, não foram "ruídos inoportunos da bancada", não foi "uma atitude racista no entendimento de Marega", não foi o "alegadamente", não foi o jogador a ser "emocional", não foi "o costume" que já ali se tinha ouvido com Nélson Semedo ou noutros sítios com outros tantos protagonistas. Não.
O que aconteceu em Guimarães foi RACISMO. Assim. Com as letras todas, em capitais, em bold, como quiserem. E o racismo, como tantas outras coisas que aqui se poderiam dizer, não é culpa da vítima, não é desculpabilizado pelo historial, não é mitigado pelos erros do passado.
O racismo é intolerável, seja em que situação for.
Foi com grande consternação que, este domingo à noite, Portugal adormeceu a perceber é um país racista. Não o percebemos com o que aconteceu a Cláudia Simões, nem quando o deputado do Chega mandou Joacine Katar Moreira para "a terra dela", nem com tantos outros casos antes destes.
Porque "até temos um amigo que", porque ele "até se pôs a jeito", porque o melhor "é ignorar". Não. Não estamos no direito de dizer a Marega que devia ter feito isto ou aquilo, e diria até que também não estamos no direito de apontar o dedo aos colegas de Marega. Choca, obviamente, ver tanta gente a convencer um outro a ficar num local em que está claramente a ser abusado racialmente, ouvindo gente a imitar sons de macacos sempre que ele toca na bola - e disto, não me venham com tretas, André André, Ivo Vieira, Miguel Pinto Lisboa, Rui Santos e tantos outros, não houve qualquer tipo de dúvida possível, porque foi claramente percetível -, mas a responsabilidade primária aqui tem de ser das autoridades.
E, no campo, a primeira autoridade é o árbitro. E Marega tem razão em queixar-se de Luís Godinho, por muito novel que possa ser tal situação na carreira do árbitro. Porque, como nos diz a UEFA, no procedimento oficial que tem para estes casos:
1. Quando um árbitro se apercebe de comportamentos racistas em campo, "tem de parar o jogo". Depois, "tem de pedir que seja anunciado no sistema de som do estádio para os adeptos pararem com os comportamentos racistas";
2. Se os comportamentos se mantêm depois do jogo recomeçar, o árbitro volta a suspender o jogo, "por exemplo, por cinco a dez minutos, e pede às equipas para se dirigirem para os balneários". É feito novo anúncio através do sistema de som do estádio;
3. Por fim, se o jogo volta a recomeçar e há novos comportamentos racistas, "o árbitro pode terminar o jogo definitivamente".
Este protocolo, como é evidente, não foi cumprido, nem de perto nem de longe, e, por isso, temos todos de agradecer a Marega por ter decidido por ele abandonar o jogo, mesmo que mais ninguém o tenha feito. É que, assim, depois do jogo, em vez de foras de jogo e penáltis, estamos a discutir o racismo que existe em Portugal, e que não se limita, claramente, nem a Guimarães, nem ao futebol.
Portugal é um país racista, sim, e cabe-nos a nós, agora, chamar os bois pelos nomes, porque isto não tem a ver com clubes, nem com desporto: tem a ver com decência humana.
Não basta não sermos racistas, temos de ser antirracistas. 🖕🏿🖕🏿
O que se passou
A partir de agora, ninguém vai poder fechar olhos e tapar ouvidos, ninguém vai poder dizer que um futebolista negro tem de servir de latrina
Marega e o insuportável racismo habitual
Caso Marega? O Benfica continua a envergonhar-nos
Marega está do lado certo da História e todos os que tentam culpá-lo e diminuir os atos racistas estão do outro (por Lá em Casa Mando Eu)
“Aos cinco anos, o meu pai pôs-me à frente para pegar uma vaca. Anos mais tarde, ia sendo aniquilado com um uppercut de um touro”
Está aberta a exceção: o Barça tem 15 dias para contratar um jogador
Zona mista
"Eu deixei de imaginar o futuro. Há dois meses estava a treinar no Câmara de Lobos, num sintético, e há seis estava castigado, sem poder treinar. Faço jogo a jogo."
- Rúben Amorim, treinador PRINCIPAL do Sporting de Braga, depois de ver a sua equipa ganhar ao Benfica, na Luz, por 1-0
O que aí vem
Segunda-feira, 17
Para quem gosta de conhecer os jovens jogadores, há dérbi de juniores entre Benfica e Sporting, às 17h, no 11.
No Campeonato de Portugal, há Beira-Mar-Condeixa, às 19h30, também no 11.
Na Premier League, há jogo grande: Chelsea-Manchester United, às 20h, SportTV1.
Terça-feira, 18
O dia começa com um particular entre as seleções sub-17 femininas de Portugal e do Brasil, às 15h, no 11.
Mas o grande chamativo é... the Chaaaaaampiooooons! Está finalmente de volta a Liga dos Campeões, com dois jogos às 20h, na Eleven Sports: Atlético de Madrid-Liverpool e Borussia Dortmund-PSG.
Quarta-feira, 19
É novamente dia de Champions, mas, antes, há Premier League: Manchester City-West Ham, às 19h30, na SportTV1.
Às 20h, na Eleven, há Tottenham-Leipzig e Atalanta-Valência.
No hóquei em patins, há FC Porto-Sporting, às 20h, na TVI24, e Benfica-J. Viana, às 21h, na BTV.
Quinta-feira, 20
É dia de Liga Europa, com cerca de uma dezena de jogos, distribuídos entre as 17h55 e as 20h. Destaque, obviamente, para os clubes portugueses: às 17h55, Sporting-Basaksehir, na SIC; às 20h, Rangers-Braga e Bayer Leverkusen-FC Porto, na SportTV.
Sexta-feira, 21
Na Bundesliga, há Bayern Munique-Paderborn, às 19h30, na Eleven.
Na La Liga, Bétis-Maiorca, às 20h, na Eleven.
Na Liga NOS, começa a 22ª jornada, com o Aves-Vitória de Guimarães, às 20h30, na SportTV1.
Na Liga Pro, há Vilafranquense-Farense, às 20h, na SportTV+.
Sábado, 22
Em dia de muitos jogos, os destaques vão para: Chelsea-Tottenham, da Premier League, às 12h20, na SportTV+; Sporting-Benfica, da Liga Revelação sub-23, às 15h, no 11; Barcelona-Eibar, da La Liga, às 15h, na Eleven; SPAL-Juventus, da Serie A, às 17h, na SportTV3; Levante-Real Madrid, da La Liga, às 20h, na Eleven.
No andebol, há Liga dos Campeões entre FC Porto e RK Vardar, às 15h, no Porto Canal.
Domingo, 23
É dia de dérbi no feminino, com o Sporting-Benfica, às 16h, no 11. Praticamente à mesma hora, não em Alcochete, mas em Alvalade, para a Liga NOS, há Sporting-Boavista, às 17h30. Às 20h, há Braga-V. Setúbal e às 20h30 FC Porto-Portimonense.
No futsal, há Quinta dos Lombos-Sporting, às 14h20, na RTP1.
Hoje deu-nos para isto
Calado, ex-capitão do Benfica
Matthew Ashton - EMPICS
Estávamos no ano 2000 quando um boato mudou a vida de Calado: o então capitão do Benfica estaria envolvido com Melão, ex-cantor da banda Excesso. Num país - e, aliás, num desporto - em que pelos vistos não há homossexuais futebolistas, a história caiu que nem uma bomba, com as piadas homofóbicas e os mais variados insultos a repetirem-se frequentemente, para ambos os intervenientes - Calado acabou por ir jogar para Espanha para se afastar do boato.
Agora imaginemos se um futebolista, fosse ele qual fosse, se assumisse homossexual, em Portugal. Como seria?
O boato que relacionou Calado e Melão
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Boa semana e não se esqueça: não seja racista, nem homofóbico, nem sexista, nem porra nenhuma.