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A insustentável idiotice do ser

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O colombiano bateu, a bola sobrevoou a baliza e há quem acredite que, falhando, só poderia ser de propósito

O colombiano bateu, a bola sobrevoou a baliza e há quem acredite que, falhando, só poderia ser de propósito

JOSÉ COELHO/Lusa

Não é certa a hora, mas todos os dias, pela madrugada, uma dor no pé que não qualifica acorda-o, imaginem o quão dolorosa tem de ser para o despertar do sono. "Depois de alguns minutos, passa e volto a dormir". Sempre entre as 3h e as 4h da manhã, dizia. Três dias seguidos de treino é mentira, as dores mais inqualificáveis ficam, o perigo de se mazelar agrava-se, tem de seguir um programa específico que mais não será do que a gestão programada da dor. É impossível ser de outra forma, já o disse também.

Porque a mente lembrá-lo-á da dor, a maldita que o fez chorar e nem com medicamentos ia embora, os médicos e os fisioterapeutas do Portimonense lembram-no em cima disso e todos nos lembramos do jogador que Jackson Martínez foi, em tempos.

Não coxeava em cada jogo, não se agarrava ao tornozelo depois de um raro pique de velocidade, não repetia o esgar de sofrimento em campo, não pensava em levantar o braço, admitir que não consegue mais e pedir a substituição, não tinha de colocar gelo sempre na mesma articulação do pé no final. Se, aos 33 anos, o colombiano ainda está a jogar, é por pura casmurrice cruzada com o gosto por fazer o que mais gosta.

Imagino que todos os dias, de manhã, a bebericar um café, tanto ignora a dor como se contenta por ainda se superar, e sorri. Não sorri eu quando, esta manhã, abrindo a bolha destiladora de maldizer que é o Twitter, me deparei logo com isto:

“Isto foi de propósito. Qualquer pessoa que diga o contrário é por pura cegueira clubística ou idiotice.”

Semelhante a esta frase vi várias, todas com um vídeo a mostrar o penálti falhado por Jackson, no domingo. Todas a insinuar que este colombiano, com esta biografia, teve a intenção de não bater a bola para acertar na baliza do FC Porto, onde teve a história goleadora que nos lembramos, no estádio onde, vamos por segundos seguir a idiota ordem de ideias sugerida, terá, portanto, sentido o dever moral de fazer por não marcar um golo contra a antiga equipa, porque, todos sabemos, é isso que os avançados fazem quando voltam a cruzar caminhos com uma camisola que já vestiram - destratam propositadamente o clube que lhes paga o ordenado para terem a cortesia de tratar de quem já foram assalariados.

É coisa que só faz sentido no muito próprio emaranhado de idiotice e ignorância que há, ia escrever em torno do futebol, mas não, é mesmo dentro do futebol.

Porque, pela segunda vez este ano, Patê Carvalho Djob pequeno-almoçou-se, saiu de casa, equipou-se à Leça do Balio, foi jogar pelos júniores do clube e ouviu insultos racistas. Primeiro de pessoas que assistiam a um encontro de miúdos, depois de um miúdo como ele, que este fim de semana lhe chamou macaco e fê-lo abandonar o campo como Moussa Marega. Não teve o mediatismo que o maliano teve, mas, talvez, Patê o tenha feito, em parte, devido ao exemplo recente da coragem de Marega em agir perante quem manifestou racismo.

Patê Carvalho Djob tem 18 anos e já pensou em desistir do futebol.

A bola em que mais pessoas chutam no mundo e mais gente vê ser chutada, de tão universal e enraizada que é, reflete os meios em que acontece. Infelizmente, não será apenas a dar t-shirts para os jogadores vestirem, à entrada para o relvado, com mensagens anti-racistas, e a passar vídeos semelhantes nos ecrãs dos estádios, que o problema se resolverá.

O racismo é um mal vindo dos mesmos lugares de muitos males, vem da imbecilidade, ignorância e idiotice, coisas humanas que não têm limites e também provocam que se maldiga um jogador que, literalmente, sofre para ainda jogar à bola, no mesmo dia em que um adolescente sofreu o que milhares ainda devem sofrer, a diário. "Não aguento mais este tipo de situações", confessou Patê Carvalho Djob. A idiotice humana é insustentável e ninguém a deveria ter de aguentar.

O que se passou

O Sporting ano I pós-BF teve que rodar parte da equipa para ganhar ao Boavista e, para sua fortuna, jogar com intensidade, soltura e boniteza que já se vira, em parte, contra o Basaksehir. O FC Porto a ressacar do episódio Marega em Guimarães também venceu o Portimonense e ouviu, ao minuto 11, os adeptos do Dragão aplaudirem em honra do maliano.

A razão para em Alvalade se contar o tempo mediante novo calendário marcou e assistiu pelo Manchester United. O motivo de todos os elogios futeboleiros portugueses, desde há mais de uma década, também marcou no milésimo encontro da carreira. Os impressionantes franceses continuaram o seu renascimento no râguebi, voltando a ganhar no torneio das Seis Nações na terceira jornada em que escoceses e ingleses os imitaram - mas, na segunda divisão da prova, Portugal perdeu com a Rússia por um ponto.

De boas novidades cá no burgo, Alex Botelho ganhou aos pontos: o surfista está a recuperar, já publica fotografias felizes e agradeceu as mensagens que recebeu após o susto de uma vida nas ondas da Nazaré.

O pugilista Marcos Acuña

Esta crónica de Bruno Vieira Amaral é sobre um tipo de jogador cuja linguagem corporal e facial afirma claramente que o futebol é um acidente de que não tardará a livrar-se. Em questão está Acuña, que talvez preferisse estar a beber mate numa fazenda a centenas de quilómetros do ser humano mais próximo, do que a fazer piscinas pelo corredor esquerdo do relvado de Alvalade, num esforço inglório de Sísifo

Alex Telles e a angústia do goleador antes do penálti

O FC Porto - Portimonense foi decidido num disparo violento e certeiro de Alex Telles já perto do fim de um jogo mal jogado, apesar de algumas oportunidades de golo falhadas. A maior delas, por Jackson Martínez, que chutou uma grande penalidade para o céu. Esta é uma crónica com notas e um elogio ao colombiano

Soares tem um enorme potencial para acabar a carreira no Portimonense e falhar uma ocasião de golo contra o FCP (Lá em Casa Mando Eu)

A análise de Catarina Pereira aos jogadores do seu FC Porto que venceram o Portimonense, no Dragão, por 1-0, com um golo de Alex Telles, que está com “o pé quente para marcar golos, sobretudo quando não sabemos como os fazer”

“O Ronaldo estava sempre a dizer que queria ter umas pernas como as minhas. Era maluco, treinava às escuras, nem sei como via as máquinas”

Fala com o coração e ainda hoje ri muito das partidas de que foi alvo quando chegou ao Sporting, vindo de Moçambique. Numa conversa via telefone, Paíto conta como era difícil fazer amigos na escola porque andava descalço e vestia a mesma roupa durante uma semana ou como a matéria da escola não entra quando se está com fome. Entre muitas histórias, garante que podia ter morrido por causa do futebol, revela que Fernando Santos era conhecido como o "senhor das duras". E fala da famosa "cueca" que fez a Luisão, num jogo da Taça, na Luz. A viver em Moçambique, apesar de a família estar em Portugal, é dono de várias lojas de conveniência, de camiões cisterna e, desde dezembro assumiu o cargo de vice-presidente para as seleções na federação do seu país de origem

Plomo, Plata e o paradoxo Bruno Fernandes

O futebol tem paradoxos destes: é possível que o melhor jogador da equipa impossibilite a equipa de jogar melhor? Em abstrato, não, pois apesar de já se terem ouvido coisas assim, a verdade é que o tipo genial geralmente resolve. Mas, na prática, há contextos específicos em que talvez o facilitador se transforme num empecilho - e quando a cabeça dele está “mais fora do que dentro”, como disse Silas, é um desses casos. Por mais estúpido que possa soar, o Sporting parece melhor sem a última versão de Bruno Fernandes do que com ele. E Sporting 2-0 Boavista, com uma grande exibição de Gonzalo Plata, pode ser um exemplo

O jogo mil foi o 11.º jogo consecutivo a marcar para Ronaldo. Mas ninguém está a contar

O internacional português marca sucessivamente no campeonato italiano desde a 14.ª jornada. A Juventus venceu

O Tsubasa existe, tem 52 anos, ainda joga e dizem ser “bem cheiroso”

Ainda Eusébio marcava golos no seu pico quando Kazu Miura nasceu, no Japão. É o futebolista mais velho de sempre a marcar um golo, provavelmente é, também, o mais antigo a alguma vez jogar. Nunca foi a um Mundial de futebol com o Japão, mas foi convocado para um de futsal. Este domingo, arranca a sua 35.ª época consecutiva, já disse que pretende jogar até morrer e dois japoneses do Portimonense, que já o defrontaram, confessam à <strong>Tribuna Expresso</strong> que o têm como um exemplo

Zona mista

"Tenho de passar por dificuldades. Não posso ganhar pontos jogando contra quem não sabem jogar ténis. Tenho de bater os melhores, caso contrário como irei conseguir ganhar Grand Slams".

Ora aí está uma lufada de noção de Stefanos Tsitsipas, o tenista grego da elegante esquerda a uma mão a quem muitos vaticinam a realeza no ténis e que parece estar bem ciente de que só lhe tocará se, com constância, for capaz de ir superando os adversários mais fortes que houver.

O que vem aí

Segunda-feira, 24

Ténis

Começam os torneios ATP 500 de Dubai (Emirados Árabes Unidos) e Acaculpo (México).

Liga NOS

Gil Vicente-Benfica (19h30, Sport TV1)

Bundesliga

Eintracht Frankfurt-Union Berlim (19h30, E1)

Premier League

Liverpool-West Ham (20h, Sport TV2)

Terça-feira, 25

Liga dos Campeões

Chelsea-Bayern Munique (20h, E2)
Nápoles-Barcelona (20h, E1)

Quarta-feira, 26

Liga Europa

Braga-Rangers (17h, Sport TV1)

Liga dos Campeões

Real Madrid-Manchester City (20h, E1)
Lyon-Juventus (20h, E2)

Quinta-feira, 27

Liga Europa

Basaksehir-Sporting (17h55, Sport TV2)
FC Porto-Bayer Leverkusen (17h55, Sport TV1)
Espanyol-Wolverhapton (17h55, Sport TV3)
Gent-AS Roma (17h55, Sport TV4)
Basileia-APOEL Nicósia (17h55, Sport TV5)

Benfica-Shakhtar Donetsk (20h, SIC)
Red Bull Salzburgo-Eitrancht Frankfurt (20h, Sport TV5)
Arsenal-Olympiakos (20h, Sport TV2)
Manchester United-Club Brugge (20h, Sport TV3)
Inter Milão-Ludogorets (20h, Sport TV4)

Sexta-feira, 28

Liga NOS

Portimonense-V. Setúbal (20h30, Sport TV1)

Premier League

Norwich City-Leicester City (20h, Sport TV2)

Ligue 1

Nimes-Marselha (19h45, E1)

Sábado, 29

Liga NOS

Rio Ave-Belenenses SAD (18h, Sport TV1)
Boavista-Gil Vicente (20h30, Sport TV1)

La Liga

Eibar-Levante (12h, E1)
Valência-Real Bétis (15h, E2)
Leganés-Alavés (17h30, E2)
Granada-Celta de Vigo (20h, E2)

Premier League

Brighton-Crystal Palace (12h30, Sport TV+)
Watford-Liverpool (17h30, Sport TV2)

Bundesliga

Augsburgo-Borussia Monchengladbach (14h30, E4)
Borussia Dortmund-Friburgo (14h30, E3)
Hoffenheim-Bayern Munique (14h30, E1)
Colónia-Schalke 04 (17h30, E3)

Série A

Lazio-Bolonha (14h, Sport TV1)
Udinese-Fiorentina (17h30, Sport TV3)
Nápoles-Torino (19h45, Sport TV3)

Domingo, 1

Liga NOS

Desportivo das Aves-Paços de Ferreira (15h, Sport TV1)
Marítimo-Braga (17h30, Sport TV1)
V. Guimarães-Tondela (20h, Sport TV1)

La Liga

Sevilha-Osasuna (11h, E1)
Athletic Bilbao-Villarreal (13h, E1)
Espanyol-Atlético de Madrid (15h, E1)
Mallorca-Getafe (17h30, E2)
Real Madrid-Barcelona (20h, E1)

Premier League

Everton-Manchester United (14h, Sport TV4)
Tottenham-Wolverhampton (14h, Sport TV2)

Bundesliga

Union Berlim-Wolfsburgo (12h30, E2)
RB Leipzig-Bayer Leverkusen (14h30, E2)
Werder Bremen-Eintracht Frankfurt (17h, E1)

Série A

AC Milan-Génova (11h30, Sport TV+)
Parma-SPAL (14h, Sport TV5)
Cagliari-AS Roma (17h, Sport TV3)
Juventus-Inter de Milão (19h45, Sport TV2)

Hoje deu-nos para isto

O árbitro mostra um cartão amarelo a Mwepu Ilunga, durante o Brasil-Zaire do Mundial de 1974

O árbitro mostra um cartão amarelo a Mwepu Ilunga, durante o Brasil-Zaire do Mundial de 1974

Ullstein bild/Getty

A voz de John Motson popularizou-se, durante décadas, na narração futebolísticas da BBC e calhou-lhe, durante o Mundial de 1974, dar palavras ao Brasil-Zaire. Quando, ao apito do árbitro, um jogador africano saiu disparado da barreira e pontapeou para longe a bola ajeitada por Rivelino, o narrador descreveu o momento como "um momento bizarro de ignorância africana".

Não podia estar com as agulhas mais trocadas com a verdade, mas, em direto, olhou para a ação de Mwepu Ilunga com os óculos do preconceito.

O defesa chutou a bola que Rivelino ia bater, num livre direto, propositadamente, porque o Zaire já perdia por 3-0 e, se acabasse derrotado por 4-0, os jogadores não poderiam regressar ao país. "Antes do jogo, vários guardas do presidente [Joseph Mobutu] fecharam o nosso hotel, barraram a entrada aos jornalistas e soubemos que, se perdêssemos por 4-0, nenhum de nós poderia voltar. Conhecia as regras bastante bem. Fiz aquilo deliberadamente e o árbitro até foi bastante tolerante e só me deu um cartão amarelo", disse Ilunga, mais tarde, à "BBC", já depois de ser eleito para o onze africano do século.

A ignorância virada contra quem a proferiu.

"Um momento bizarro de ignorância africana"

Foi assim que John Motson, comentador televisivo da BBC, descreveu o momento Brasil-Zaire no Mundial de 1974, quando um adversário pontapeou a bola que Rivelino ia bater num livre direto, mal o árbitro apitou

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Que tenha uma boa semana e cito o que a Mariana Cabral escreveu há oito dias, porque a repetição nunca será demais: não seja racista, nem homofóbico, nem sexista, nem porra nenhuma.