Aqui vai um palpite sobre Ronaldo: vai estar no Euro 2020
Numa semana em que muito se falou de Cristiano Ronaldo, o capitão português respondeu em campo, marcando três dos seis golos com que Portugal goleou a frágil Lituânia. A qualificação para o Euro 2020 ficará decidida no domingo, frente ao Luxemburgo (14h, RTP1)
14.11.2019 às 21h55
PATRICIA DE MELO MOREIRA
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Não se pode dizer que tenha sido uma semana particularmente diferente das outras, no que à seleção nacional diz respeito. Seja o adversário qual for, independentemente da competição ou das circunstâncias, 95% das conversas à volta de Portugal vão sempre dar ao mesmo:
Cristiano Ronaldo.
Os jornalistas nacionais perguntam por ele, os jornalistas internacionais repetem as perguntas por ele, os colegas dizem sempre que é o melhor do mundo e Fernando Santos, claro está, idem.
O culto a Ronaldo é habitual em semanas de seleção e não se pode dizer que o próprio não o mereça: já são, afinal, 95 golos (ou melhor, eram, antes do início deste jogo, mas já lá vamos) pela seleção que ajudou a conquistar o Euro 2016 e a Liga das Nações.
Ora, se a conversa à volta de Ronaldo é sempre habitual nestes dias, menos habitual é ter Fernando Santos a irritar-se com isso. É que, desta vez, a conversa não era propriamente simpática: todos queriam saber o que se passava com o avançado que não gosta de ser substituído e, ao sê-lo duas vezes seguidas, na Juventus, soltou uns impropérios na direção de Maurizio Sarri.
Nada de particularmente dramático para quem já andou em balneários, mas, ainda assim, suficiente para lançar o pânico internacional, até porque o treinador da Juventus tinha justificado o repouso do avançado com alegadas dores num joelho.
E foi assim que, logo à primeira pergunta sobre Ronaldo, na antevisão do jogo, Fernando Santos perdeu a paciência: "Mas isso é uma questão incontornável para quem? Para mim não é. Se não estivesse bem, não o tinha convocado. Obviamente toda a gente quer falar de Cristiano Ronaldo e toda a gente gosta de dar palpites sobre o Cristiano Ronaldo, porque é o melhor do mundo. Se fosse outro jogador qualquer não se falava nada disto. Cristiano está aqui, está bem e vai jogar, não há dúvida nenhuma em relação a isso."
E, à segunda, pior ainda: "Cristiano Ronaldo outra vez não. Peço desculpa mas não volto a falar de Cristiano Ronaldo. Se quiseres fazer uma pergunta sobre o jogo, fazes. Sobre isso já respondi."
Carlos Rodrigues
A questão é que, palpites à parte, o próprio jogo começou logo à volta do incontornável Cristiano Ronaldo. Saulius Mikoliunas confundiu o avançado com a bola, deu-lhe um pontapé dentro da área e Ronaldo aproveitou para concretizar o penálti e fazer o seu primeiro golo da noite.
Em meia de dúzia de minutos, Portugal destruía qualquer possível estratégia dos lituanos e mostrava que não estava, de todo, para brincadeiras, ao contrário do que tinha acontecido na Lituânia, quando a seleção facilitou e chegou a sofrer um golo.
É que é preciso recordar que a Lituânia, independentemente da bonita história de Jankauskas em Portugal, não é propriamente um colosso: ocupa a 132ª posição do ranking mundial da FIFA, abaixo do Ruanda, do Sudão e do Togo, por exemplo.
Ainda assim, a verdade é que o onze escolhido por Fernando Santos deu espetáculo, ofensivamente falando - defensivamente nem foi preciso fazer grande coisa, já que a bola raramente chegou à área de Rui Patrício - ou melhor, ultrapassou o meio-campo...
Lá atrás, Rúben Dias e José Fonte foram praticamente espectadores, e Mário Rui e Ricardo aproveitavam para subir pelos corredores laterais, apoiando o meio-campo de Rúben Neves, Bruno Fernandes e Pizzi, e o ataque de Ronaldo e Gonçalo Paciência - no regresso à seleção, foi logo o escolhido para ser o parceiro de Ronaldo. No meio disto tudo, restava um outro homem cuja posição era, a bem da verdade, indefinida, a deambular por tudo o que era sítio, nunca deixando perceber afinal que sistema era este, já que ele estava em todo o lado: Bernardo Silva.
NurPhoto
Quando estava à direita, o jogo de Portugal seguia para a direita - ofereceu um golo a Ronaldo, mas o capitão cabeceou por cima -; quando estava à esquerda, o jogo de seguia(-o), para a esquerda - ofereceu um golo a Paciência, mas o avançado do Eintracht não acertou na bola.
Praticamente tudo o que Bernardo fez, fez bem, dinamizando o ataque da seleção e gerando situações de finalização para os colegas: encontrou Mário Rui pela esquerda e o lateral meteu a bola na cabeça de Paciência, mas Setkus evitou o primeiro golo do avançado pela seleção.
Repetidamente, Paciência, sempre muito ativo no ataque, tentou o golo, mas mesmo sem ele já se destacava: depois de uma perda da Lituânia na saída de bola, Gonçalo isolou Ronaldo e o capitão, de fora da área, de primeira, rematou em arco para um belíssimo 2-0.
Aos 20', a maioria das pessoas provavelmente já teria perdido a conta à quantidade de remates portugueses, porque só deu mesmo Portugal: Ronaldo, Paciência, Bernardo, Mário Rui - todos tentaram, mas o 2-0 manteve-se. O 2-0 e uma estatística avassaladora ao nível da posse de bola: 72% para Portugal, 28% para a Lituânia.
O jogo estava de tal forma confortável que, ao intervalo, Ronaldo saiu do campo a tirar uma foto com um apanha bolas - e, durante a segunda parte, o relvado foi invadido por duas vezes por adeptos que queriam tirar selfies com o avançado português.
NurPhoto
Distrações à parte, Portugal continuava a dominar tranquilamente: aos 52', foi Pizzi a marcar; aos 56', finalmente, Gonçalo Paciência, na recarga de um remate de Bernardo; e, aos 63', foi o próprio Bernardo.
Em condições normais, a noite era de Bernardo. Mas, quando há Ronaldo, a verdade é que Ronaldo é incontornável.
Só faltava mesmo o 98º do capitão pela seleção (o recorde de Ali Daei, de 109 golos, está cada vez mais próximo), que chegou aos 65': dentro da área, remate certeiro para a baliza, após passe de... Bernardo.
PATRICIA DE MELO MOREIRA
Com o 6-0, Fernando Santos aproveitava para rodar a equipa - saíram Bernardo e Bruno Fernandes, entraram Bruma e Moutinho - e, por fim, para perguntar a Ronaldo se estava tudo bem. Ele respondia que sim e que queria ficar em campo, mas lá acedeu à saída, desta vez sem fazer cara feia, para descansar para domingo.
Porque é domingo que, palpita-me a mim, a ele e, provavelmente, a todos quantos os que leiam isto, que Portugal vai garantir a qualificação para o Euro 2020.
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