Gabriel Medina, propositadamente a fazer uma interferência para se manter na luta pelo título: "Joguei o jogo, sabia o que estava a fazer"
No Pipe Masters, última etapa do circuito mundial de surf, no Havai, o brasileiro, que está a discutir o título mundial com Ítalo Ferreira, admitiu ter cometido uma interferência na última onda do heat contra Caio Ibelli, porque sabia que, mesmo assim, teria nota suficiente para rumar aos quartos-de-final. "Comecei a ouvir o padrasto na praia 'agora podes queimá-lo", disse o derrotado, que já fora alvo de uma interferência de Medina em outubro, na etapa de Peniche
19.12.2019 às 21h23
Ed Sloane/Getty
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Faltavam segundos, uma mera onda na Pipelline prometedora, a querer espreguiçar-se, já abrindo a boca para bocejar, mas ainda sem a boa sonolência que engloba almas em tubos aquáticos, e Gabriel Medina estava na frente do heat dos oitavos-de-final. Dali tinha que sobreviver, obrigatoriamente, para impedir que o título mundial certamente brasileiro ficasse, por certo, com Ítalo Ferreira antes da prova terminar.
Nesses segundos, apareceu uma última onda, tímida em tamanho, sem prometer grande coisa a Caio Ibelli, o dono da prioridade que remou para aceitar a boleia oferecida e tentar a sorte, mesmo que improvável. Medina, porém, deu às mãos, também remou, fez-se à onda quando não tinha direito, apanhou-a, desceu a parede e pôs-se de pé à frente de Caio, cujo espanto lhe abriu os braços com desaprovação.
Parecia ser a repetição de um filme visto em Peniche, na etapa portuguesa do circuito, quando Medina foi eliminado, em parte, devido a uma interferência feita na bateria contra Ibelli. O passado parecia estar a remexer as águas.
Mesmo com esta interferência, não havendo tempo para mais, Gabriel venceu o heat em Pipeline - as regras ditam que o castigo da infração seja o descartar da segunda melhor onda do surfista e, no caso, era um 1.13. Os 4.23 da sua melhor onda sobravam para Medina superar o total de 1.13 de Caio Ibelli. Seguia com a vitória, mas ficava o gesto.
Na areia, o bicampeão mundial que está a surfar para um terceiro título admitiu que "sabia o estava a fazer" e jogou o jogo que julgou ter de jogar. "Joguei o jogo. Era a minha prioridade, sabia que se tivesse uma interferência ia ganhar na mesma e faltavam 20 segundos. Está tudo bem. Ele precisava de um 5, não sabia se ia dar. Tinha que jogar o jogo, sabia o que estava a fazer", resumiu.
Depois, na sua fez de analisar a bateria, Caio Ibelli confessou ter ouvido Charles Medina, padrasto de Gabriel, a gritar "pode rabear, pode rabear", expressão brasileira para um surfista se enfiar na onda de outro. As imagens, mais tarde, mostrariam Gabriel, na água, a dar sinal, com a mão, de ter entendido a mensagem. "Comecei a ouvir o seu padrasto a gritar 'agora podes queimá-lo!', e, na onda seguinte, ele, de facto, queimou-me. Nunca tinha visto um competidor assim, faz tudo para ganhar, até jogar sujo, mas é isso que faz um campeão. Depois, pediu desculpa, e eu 'what?'", explicou o eliminado.
A lei de tudo fazer para ganhar aplicou-se, à lei do feitio irredutível de um surfista que eleva a palavra competidor a um significado muito próprio.
Para ser campeão do mundo, Gabriel Medina tem sempre de superar a prestação de Ítalo Ferreira, apenas se o conterrâneo não acabar por vencer a prova.
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Todos os irmãos são 'doutores', ele ainda tentou sê-lo, mas as pranchas de surf não deixaram. João Cabianca tem 55 anos, é shaper há mais de 30 e faz as pranchas que Gabriel Medina tem debaixo dos pés há uma década. Pagou do próprio bolso as primeiras que desenhou para o brasileiro, por ser amigo do padrasto, quando ele ainda era "um puto chato", antes de virar o " The Freak Kid" que explodiu num evento em França, aos 15 anos. Diz que os shapers mais jovens "dependem muito das máquinas"